Existe vida empreendedora longe do Instagram?
Poste sua rotina nos stories — pelo menos dez por dia.
Crie conteúdo de valor, com dicas que gerem identificação.
Publique mais reels. Os de até sete segundos têm mais chances de viralizar.
Use as músicas em alta.
Leve as pessoas para a legenda.
A receita para o sucesso no Instagram existe.
E eu juro que tentei.
Tentei e recomecei várias vezes. Em todas elas, falhei, me cobrei e me comparei ainda mais.
Eu acordava sem vontade de aparecer nos stories e logo vinha aquele pensamento:
“Mas eu tenho que postar.”
“Mas eu não estou no clima.”
“Como as influenciadoras conseguem?”
O contrário também acontecia. Quando eu tinha uma experiência para compartilhar ou uma notícia legal para comentar, pegava o celular sem pensar muito no cabelo, na roupa ou na iluminação.
Os stories fluíam.
E talvez essa seja uma dica oculta no meio de tudo isso.
Quando criar conteúdo vira obrigação
Por que é tão difícil para mim criar conteúdo no Instagram?
Eu fiz cursos. Participei de desafios. Segui calendários. Testei estratégias. Comecei animada e cheia de ideias.
Mas, no fim, não conseguia continuar.
O problema não era falta de informação. Eu sabia que precisava aparecer. Sabia que deveria mostrar os bastidores, falar dos meus serviços, compartilhar dicas e criar conexão com o público.
Eu sabia o que precisava fazer.
Só não estava conseguindo sustentar aquilo na rotina.
E existe uma diferença enorme entre saber que algo é importante e conseguir fazer aquilo de maneira saudável.
Por algum tempo, achei que me faltava disciplina.
Depois, pensei que precisava de uma estratégia melhor.
Em seguida, imaginei que o problema era o formato, o horário, o conteúdo ou o algoritmo.
Mas comecei a perceber que talvez o Instagram simplesmente tivesse se tornado chato para mim.
Eu sou fotógrafa. Trabalho há anos fotografando negócios, marcas e profissionais.
Mas, no meu perfil, o conteúdo que realmente recebia atenção era quando minha bebê linda aparecia.
Não era o conteúdo mais estratégico. Não era o mais planejado. Não tinha roteiro, gancho ou chamada para ação.
Era apenas vida real.
E talvez fosse justamente isso que as pessoas sentiam.
A comparação também cansa
As redes sociais nos entregam muitas fórmulas.
Você precisa postar todos os dias.
Precisa aparecer mesmo sem vontade.
Precisa transformar qualquer momento em conteúdo.
Precisa acompanhar as tendências.
Precisa publicar reels.
Precisa usar músicas em alta.
Precisa falar com a câmera.
Precisa mostrar sua rotina.
Precisa vender sem parecer que está vendendo.
Precisa fazer tudo isso com leveza, constância e um sorriso no rosto.
Quando vemos outras pessoas realizando tudo com aparente facilidade, começamos a acreditar que há algo errado conosco.
Como aquela influenciadora consegue aparecer todos os dias?
Como aquela empreendedora grava vídeos mesmo quando está cansada?
Como aquela profissional tem ideias para publicar o tempo todo?
A comparação quase nunca mostra o cenário inteiro.
Não sabemos quem ajuda aquela pessoa, quanto tempo ela dedica à produção, qual é a estrutura disponível ou como se sente depois que a câmera é desligada.
Mesmo assim, olhamos apenas para o resultado e usamos aquilo para medir a nossa própria capacidade.
Eu fiz isso muitas vezes.
Me cobrava por não aparecer. Me comparava com quem aparecia mais. Sentia culpa quando passava alguns dias distante.
E, quanto mais eu me cobrava, menos vontade tinha de criar.
As tentativas de recomeçar
Desinstalei o aplicativo algumas vezes.
Mas sempre acabava voltando.
Afinal, meus clientes estão lá.
Meu trabalho está lá.
A maioria das pessoas espera encontrar uma empresa no Instagram antes de entrar em contato. Muitos negócios dependem da plataforma para divulgar produtos, mostrar serviços e gerar vendas.
Então eu voltava.
Tentava novamente.
Criava novas estratégias.
Estabelecia metas mais realistas.
Prometia que, daquela vez, faria de um jeito diferente.
Mas o final costumava ser o mesmo: eu frustrada, cansada e cada vez mais ansiosa.
E uma frase começou a se repetir na minha cabeça:
“Isso não está me fazendo bem.”
Essa frase é difícil de ignorar.
Principalmente quando estamos falando de uma ferramenta que também faz parte do nosso trabalho.
Como sair de algo que pode trazer clientes, mas também rouba energia?
Como estabelecer limites em uma plataforma que parece exigir presença constante?
Como empreender sem transformar a própria vida em uma sequência interminável de publicações?
Tô off nas redes, mas on na vida real
Dessa vez, antes de desinstalar o aplicativo, resolvi deixar uma mensagem:
“Tô off nas redes, mas on na vida real. Me chama no WhatsApp.”
Achei importante explicar que meu silêncio não significava abandono.
Eu continuava trabalhando. Continuava fotografandoo. Continuava disponível.
Apenas estava tentando recuperar um pouco de espaço mental.
Mas sei que, quando eu voltar, talvez o algoritmo já tenha deixado meu perfil no esquecimento.
E agora?
Existe vida empreendedora fora do Instagram?
Eu acredito que sim.
Meu pai tem um negócio há mais de trinta anos e não tem rede social.
Trinta anos.
Sem reels, sem stories, sem trend, sem música em alta e sem a obrigação de transformar cada detalhe do negócio em conteúdo.
Claro que o mercado mudou. A cultura digital mudou. Os hábitos de consumo mudaram.
As redes sociais podem ser ferramentas importantes, principalmente para pequenos negócios e marcas pessoais.
Mas, em algum momento, começaram a nos fazer acreditar que somos obrigados a estar lá o tempo inteiro.
Como se não existir no Instagram fosse o mesmo que não existir no mercado.
E talvez essa seja uma das maiores armadilhas.
Uma ferramenta pode ser importante sem precisar controlar toda a nossa vida.
Quais são as alternativas?
Essa é a pergunta que estou fazendo agora.
Fazer anúncios?
Voltar a escrever no blog?
Investir em e-mail marketing?
Fortalecer o WhatsApp?
Criar uma rede de contatos fora das plataformas?
Participar de eventos presenciais?
Construir parcerias?
Produzir conteúdos mais profundos e duradouros?
Eu sou jornalista formada, embora nunca tenha trabalhado na área depois de receber o diploma.
Mas existe um sanguinho jornalístico correndo por aqui. E talvez ele seja um pouco culpado por esse sentimento de revolta diante de conteúdos rasos, rápidos e feitos apenas para merecer likes.
Não tenho nada contra os vídeos curtos.
Alguns são úteis. Outros são divertidos. Muitos despertam ideias importantes.
Mas vamos ser sinceros?
Assistimos a um reel de poucos segundos com uma dica interessante. Salvamos. Fazemos um print. Talvez até pensemos que vamos voltar para rever.
Mas, na maioria das vezes, não voltamos.
O próximo vídeo já roubou nossa atenção.
Depois vem outro.
E mais outro.
A informação se mistura com entretenimento, comparação e distração. Quando percebemos, passamos quase uma hora consumindo conteúdos que não lembramos mais quais eram.
É a dopamina sendo alimentada o tempo todo.
Quanto tempo estamos entregando?
Quantas vezes pegamos o celular e ficamos rolando o feed infinitamente?
Quantas vezes abrimos o Instagram para ver uma coisa específica e nos perdemos ali por trinta, quarenta minutos?
Quantas vezes entramos apenas para responder uma mensagem e saímos depois de assistir a dezenas de vídeos?
Eu tenho pensado muito sobre isso.
Quero estar mais on na vida real.
Sinto que tenho perdido tempo nas redes — um tempo que não volta mais.
Tempo que poderia ser usado para brincar com minha filha, conversar com alguém, ler, caminhar, descansar ou simplesmente ficar em silêncio.
Esses dias, assisti a um vídeo que falava sobre o tempo médio de vida de uma publicação em diferentes plataformas.
No Instagram, um post pode perder força em poucas horas. No TikTok, a circulação costuma ser ainda mais rápida. Já no Pinterest, um conteúdo pode continuar sendo encontrado por muito mais tempo.
Não estou tratando esses números como uma regra absoluta. Cada conteúdo tem um desempenho diferente.
Mas a comparação me fez pensar:
Quanto tempo eu levo criando conteúdo para as redes?
Quanto tempo esse conteúdo permanece sendo visto?
Quantas horas de planejamento, gravação, edição e publicação são necessárias para acompanhar uma velocidade que nunca parece diminuir?
Para mim, essa conta não está fechando.
A contradição da fotógrafa
E existe uma contradição curiosa nessa história.
Sou fotógrafa. Trabalho há anos fotografando negócios.
E esses negócios precisam de fotos.
Adivinha para quê?
Para postar no Instagram.
É lá que, para muitas marcas, acontecem as vendas, os contatos e as oportunidades.
Eu ajudo empresas a criarem imagens para uma plataforma que, ao mesmo tempo, tem me feito questionar a maneira como estamos trabalhando, consumindo e vivendo.
É paradoxal.
A fotografia continua sendo necessária.
As marcas precisam se comunicar.
As pessoas precisam ser encontradas.
Mas talvez a solução não seja produzir cada vez mais, correr cada vez mais e aparecer cada vez mais.
Talvez seja construir uma comunicação mais consciente.
Ter fotos que possam ser usadas em diferentes canais.
Investir em um site, em um blog, em uma lista de contatos e em relacionamentos que não dependam exclusivamente de uma plataforma.
Talvez seja entender que o Instagram pode ser uma vitrine, mas não precisa ser a casa inteira.
O que vem depois?
Ainda não sei.
Talvez eu sofra de abstinência.
Talvez volte para o Instagram em alguns dias, cheia de saudade dos stories e das conversas rápidas.
Talvez perceba que consigo trabalhar de outra forma.
Talvez retorne, mas com limites mais claros.
Ou talvez descubra que estava usando a plataforma mais por medo do que por estratégia.
Não quero tomar uma decisão definitiva no meio do cansaço.
Quero observar.
Quero experimentar outros caminhos.
Quero entender o que funciona para o meu negócio sem precisar me abandonar no processo.
Porque essa também é uma pergunta importante:
De que adianta crescer profissionalmente se, para isso, eu me sinto cada vez pior?
Ainda estou escrevendo os próximos capítulos.
Não sei se continuarei publicando aqui com a mesma frequência. Não sei se voltarei para o Instagram amanhã ou se demorarei mais.
Mas sei que quero estar mais presente na minha vida real.
Quero trocar emojis de corações por conversas verdadeiras.
Quero cafés demorados, ideias profundas e encontros que não terminem quando a tela é desligada.
E você?
Acredita que existe vida empreendedora longe do Instagram?
Já tentou se afastar das redes?
Sentiu falta ou sentiu alívio?
Estou aceitando dicas — e cafés para bate-papos reais, mais profundos do que uma sequência de curtidas.
Um beijo.

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